O torcedor brasileiro, em esmagadora maioria, é na verdade torcedor conveniente. Sabe aquele cara que nem vê jogo do time que ele diz torcer, não conhece nem 3 jogadores titulares, mas é o primeiro a querer zoar quando ganha, e o último a dar as caras quando perde? Então, assim é o povo brasileiro com relação ao esporte, à exceção do futebol que por ser mais complexo, falo depois.
Duas situações me motivaram a escrever sobre o tema(depois de séculos sem cuidar desse espaço): ouvir pela infinitésima vez que a Formula 1 perdeu a graça após a morte do Senna e um post que li num blog de um jornalista dizendo, em suma, que Rubens Barrichello mereceu ser a piada mais repetida dos últimos 18 anos. Sobre o primeiro, a grande verdade é que a Formula 1 perdeu a graça quando o brasileiro que assistia as corridas apenas porque o Senna era brasileiro, como se isso fosse um dever de cidadão e ultra patriótico, viu seu único piloto capaz de vencer corridas e campeonatos perder a vida. A partir do dia 1 de Maio de 1994, o Brasil passava a ter apenas uma promessa de piloto de ponta, e o povo queria uma realidade. A diferença é que quem é fã do esporte, continuou acompanhando, independente das chances de se ouvir o hino nacional brasileiro na cerimônia do pódio ou não, mas a grande maioria, que só assistia enquanto era conveniente, caiu fora. A TV Globo, já conhecedora desse comportamento, e não querendo perder audiência, passou a vender Rubens Barrichello como o novo Senna. Parte desse povo comprou a idéia, e o próprio Rubens também, e aí reside o seu erro que determinou toda a sua carreira como motivo de piada. O mais grave é que ele insistiu nesse erro por anos, sempre com o mesmo ritmo de “Agora vai”. A paciência de todos se esgotou com o nada agradável “Hoje não, hoje não, hoje não… hoje sim!? hoje sim???” de Cléber Machado. E é aí que entra o segundo fator:

A graça da F1 para os brasileiros: Na mão esquerda do Senna!
Ele assumiu um desafio de substituir um piloto tecnicamente muito superior a ele, carismático e respeitado onde quer que fosse, até mesmo pelos maiores rivais. Não tardando em perceber que daria errado, a TV Globo me comete uma das maiores crueldades em forma de contradição que eu já vi: Continuava vendendo a idéia do Rubens sucessor de Ayrton no fim de semana(treinos de sábado + corrida) e na terça-feira o reduzia ao ridículo no Casseta & Planeta. E o bom brasileiro, ávido por vitórias e por ouvir seu hino novamente na F1 e sentir orgulho e menosprezo aos “gringos”, deixou de acreditar no herói vendido nos fins de semana para comprar o trapalhão oferecido nas terças. O problema é que o Brasil teve, por 3 décadas seguidas, nomes fortes, contando com Emmerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna, e essa era a graça do esporte. Para se ter uma idéia através de comparação, o Coulthard foi outro que nunca correspondeu às expectativas dos conterrâneos, e ainda sim, hoje é comentarista da BBC nas transmissões da F1. Pergunte a qualquer pessoa, ou melhor, pergunte-se: “Você torceria para o Senna se ele fosse, digamos… francês?!” Eu conheço pessoas que sempre que vêem o Alain Prost na tv o chamam de safado, disso e daquilo. O cara era um gênio, isso sim. Teve seus momentos sujos, o Ayrton também teve, mas eram muito acima da média, e eu preferia o Ayrton, também por ser brasileiro, não nego. Mas esse não era O MOTIVO. Era um dos motivos, não o mais importante. Se o Senna fosse francês, seria apenas mais um bom piloto e só, encarado como vilão por ofuscar o nosso verde e amarelo. Perdeu a graça por isso, por que sem ele não teve mais Brasil-zil-zil!!! Houve um esboço de reação com Felipe Massa em 2008, no campeonato que mais sobreviveu em aberto por conta de manipulação da FIA, e ainda sim, Lewis levou. Queriam um novo Senna, que diga-se de passagem era o Rei da Chuva. Vem o Massa, roda CINCO VEZES em Silverstone numa corrida chuvosa, sendo que este circuito é de longe um dos mais conhecidos por qualquer piloto que tenha chegado à F1, pois as categorias de base correm direto lá. Não passou nem perto de novo Senna, e ainda sim o que se ouviu foi: Tiraram o nosso título. Nosso??? Tiraram??? Moral da história: Lewis Hamilton e Timo Glock, novos vilões nacionais. Ah, e antes que eu me esqueça: Nelson Piquet não é muito bem visto por muita gente, mas tenho certeza que quem hoje o chama de chato, e outros termos piores, também gostava de ver ele ganhar.
Candidato a novo Senna, Massa faz feio na chuva!
Da mesma forma, o Tenis ganhou projeção e sempre teve seus minutos a mais no Globo Esporte quando o Guga tava ganhando tudo. Ninguém nem ligava pro Tenis, queriam ver o Guga levantando troféu, derrotando estrangeiros e tal. E o Boxe, era Popó isso, Popó aquilo, um tal de gente falando em luta, que o Popó era sinistro, que era fã do cara, que se amarrava em Boxe. Cadê? Onde se fala em Boxe hoje em dia? Não tem mais brasileiro bom, né? Até o Volei tá passando por isso! Não se vê mais aquela cobertura bem caprichada da TV ao falar da seleção brasileira, do esporte em geral, dos campeonatos. Tudo por que? Já apareceram alguns tropeços daquela seleção que dominou em seu tempo mas já está em declínio. E assim mais um esporte vai perdendo a graça. A bola da vez são as lutas de UFC, tem Anderson Silva, tem José Aldo, tem Vitor Belford, tem Brasil ganhando. E enquanto tiver, tem fã incondicional do esporte no país e tem espaço na mídia. Quando a fonte secar, encontram outro esporte.
No futebol a brincadeira fica muito mais complexa, e é o único esporte que eu arrisco a dizer que mesmo que a seleção brasileira afunde, o esporte continuará forte, totalmente por causa dos clubes. Os times conseguiram superar essa condição do torcedor, tirando poucos que só vestem a camisa quando vencem, porque o cara prefere torcer pra time estrangeiro pra secar um rival. Parando pra pensar, é super contraditório, mas o futebol conseguiu ser uma das paixões do brasileiro e grande parte disso se devem aos clubes e as rivalidades. A história vendida pela TV Globo que o time X é o Brasil na Libertadores, no Mundial, no torneio que for, não cola. Poucos são os que realmente torcem por esse motivo. O sujeito entra em conflito porque ele é brasileiro, mas ele também é Y, aí não pode torcer pra X. A menos que X não seja um time rival, aí ele nem torce, quando muito vê o jogo. Se ganhar, fica feliz porque(adivinha?) o Brasil ganhou alguma coisa, senão, fica feliz porque vai poder zoar algum conhecido que torce para aquele time. Conveniência pura. É, no futebol também tem, mas as vezes. Tipo Barcelona x Santos. Se o Santos vence, hoje todos estariam dizendo que Neymar e cia derrubaram os espanhóis, orgulho do futebol brasileiro, que NÓS ganhamos o mundial e etc. Mas como o Santos perdeu, ELES perderam, nós não temos nada a ver com isso, e por isso podemos aproveitar para zoar os santistas. Pensamento típico.

Troféu da Libertadores, causador da discórdia: Por ele, ninguém liga pra hino rsrsrs
Um exemplo perfeito é a Copa do Mundo de 2002, do Japão e Coréia do Sul: Jogos de madrugada, os 3 primeiros da primeira fase, só os que gostam mesmo de futebol assistiram(imagina aquela tia que não perde uma novela e ainda reclama porque nas quartas a novela acaba mais cedo por causa do jogo: “Eu, acordar de madrugada pra ver jogo, nem de brincadeira…”). Mas ao chegar nas quartas, jogo mais importante, contra a Inglaterra, esses que diziam não acordar pra ver jogo já passaram a acordar. E na final, tudo bem que foi de manhã cedo, mas mesmo assim até aqueles que dizem não suportar já chegaram junto pra assistir. Comemoraram feito loucos, como se tivessem visto desde o primeiro minuto do primeiro jogo…
Eu também sou brasileiro, torço pela seleção, mas em outros esportes, escolho quem vai ter minha torcida por diversos motivos. Nacionalidade conta sim, mas não é tudo. Não sou obrigado a torcer pelo Felipe Massa, só por ser brasileiro e por estar em uma equipe que tem condições de vencer(Se bem que o torcedor canarinho se for depender da Ferrari pra ver um dos seus ser campeão, não sei não, hein?). Não o acho piloto top, é bom, mas nada que se salte aos olhos, não vou com a cara dele e não consigo gostar de piloto que ora culpa os pneus(desde 2009 isso), culpa a equipe, culpa os adversários, companheiro, chuva, mas nunca assume que errou. Foi nesse mesmo ponto que deixei de acreditar no Barrichello, ao invés de dar ouvidos ao Casseta & Planeta, como a maioria fez. Mas isso não significa que eu o ache uma piada. Bom piloto e nada mais. Na Formula 1 sou torcedor da McLaren, porque depois que o Senna morreu e a “F1 perdeu a graça”, eu tinha que escolher outro para torcer. Já não tinha mais o piloto, mas o carro branco e vermelho em que ele fez história ainda estava lá: Pronto, problema resolvido. Sou McLaren e torci contra o Massa em 2008 sim, “nessa F1 sem graça que não toca mais o hino do meu país”. Mas pra fechar, uma última pergunta: esse torcedor que adora ouvir o hino em qualquer cerimônia de premiação em seja qual esporte for, sabe cantar o hino, pra se dizer tão patriota assim? Só digo que eu sei… E as duas partes.
Pra fechar, uma recordação:
OBS: Segundo o autor, o vídeo foi espelhado para evitar reivindicação de direitos autorais por parte da FOM. Mas o que vale é o som, hahahahah!
Perdeu a graça quando o Schumacher parou de ganhar, ele é o melhor piloto de todos tempos e a ferrari é a melhor equipe…rs!!!